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Em 2018 o ensino de engenharia no Brasil poderá ser alvo de uma bem-vinda mudança: a implantação de um sistema de avaliações seriadas do ensino de engenharia nas modalidades presencial, semipresencial e EAD, e em âmbito nacional. Batizada como Anaseng (Avaliação Nacional Seriada do Ensino de Engenharia), o sistema alcançará os estudantes de engenharia do primeiro, terceiro e quinto anos dos cursos, por meio de instrumentos e métodos que considerem os conhecimentos, as habilidades e as atitudes dos estudantes, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de engenharias.

Implantado, o sistema Anaseng configurar-se-ia como importante passo na estratégica caminhada de recuperação do ensino da engenharia no país, cuja má qualidade é notória e bem documentada, ainda que pouco divulgada.

O Brasil possui hoje 950 mil alunos em 4.500 cursos de engenharia. Segundo o último Enade (2014), 81% desses cursos foram classificados com notas 1, 2 e 3 numa escala de 5. Nada menos que 50% obtiveram notas 1 e 2, ou seja, foram classificados como ruins ou péssimos pelos critérios do MEC. E os dados “camuflam” a realidade: apenas 40% dos cursos de engenharia puderam ser avaliados. Isso porque 60% deles são de faculdades novas, nascidas na esteira do Fies, sem histórico de qualidade e que ainda não formaram turmas. Ou seja, podemos estar convivendo com uma “calamidade silenciosa”.

Novo sistema avaliará os conhecimentos, as habilidades e as atitudes dos estudantes de engenharia no país

E a situação pode piorar consideravelmente! O MEC já autorizou a abertura de mais de 250 mil vagas/ano de engenharia pelo sistema EAD, isso é, à distância. Feitas as contas, tudo isso significa que poderemos ter um dos maiores sistemas de ensino de engenharia do mundo, e provavelmente, um dos piores.

Falamos de um volume gigantesco de cursos cujos professores têm pouca experiência profissional, com currículos desprovidos de atividades criativas e inovadoras, infraestrutura insuficiente e laboratórios precários. O resultado é um sistema de ensino operando em circunstâncias muito aquém do ideal. A conclusão é dolorosa: estamos formando engenheiros sem a qualificação demandada por um mercado cada vez mais competitivo e exigente.

Temos denunciado esta situação continuamente em artigos, congressos, debates e palestras em todo o Brasil, nos ambientes acadêmicos e profissionais das diversas áreas das engenharias, como os Creas, Confea, Cobenge, Abenge e associações profissionais das engenharias.

Fruto dessa articulação, e com o apoio de algumas dessas entidades, as avaliações nacionais seriadas surgem como uma proposta de ação inspirada no modelo aplicado na Índia, país que forma mais de um milhão de engenheiros anualmente. Feitas com alto grau de seriedade e equivalentes aos exames de proficiência, elas resultariam em um ranking meritocrático que tornaria pública a real qualidade das instituições de ensino, com forte impacto sobre sua imagem institucional e, em consequência, o valor de seus cursos e vestibulares no mercado de educação.

Além disso, forçaria professores e alunos para fora de suas zonas de conforto em favor de posturas mais críticas e reivindicatórias quanto à qualidade dos cursos. Provocaria, por exemplo, um benchmarking de currículos e métodos de ensino com as escolas melhor colocadas ou com exemplos internacionais disponíveis. Fora do Brasil, aliás, nota-se grande inovação no ensino de engenharia, especialmente nos Estados Unidos, onde se destacam experiências transformadoras que já são referência internacional, como as observadas nas faculdades de Illinois/Urbana, Stanford e Purdue e MIT.

A busca por qualidade e posicionamento diferenciado ainda é tímida no Brasil. As iniciativas brasileiras de maior relevância estão localizadas no ITA e Insper/SP (novas formas de ensinar engenharia), Poli/USP (o engenheiro de “visão global”), UFMG (ENG 200), Isitec/SP (engenharia de inovação), IME/RJ e Unisal/Lorena-SP (abordagem CDIO – “Conceive, Design, Implement, Operate”) e Crea-MG (projeto piloto do Selo de Qualidade para cursos de engenharia de MG).

No geral, poucas instituições adotaram metodologias ativas em salas de aula, programas avançados de formação e recapacitação de docentes e de nivelamento de alunos, oficinas e laboratórios virtuais. Pouco se fala sobre currículos participativos, com aulas práticas mais estimulantes ou projetos voltados para questões típicas brasileiras. Tais práticas revitalizariam a vida acadêmica, permitiriam observações personalizadas das faculdades, professores e alunos, estimulando o maior compromisso de todos com a escola e o estudo.

A discussão sobre a educação superior brasileira nos últimos tempos girou em torno de números: tantas escolas, tantas matrículas etc. Entretanto, no ensino superior, quantidade não significa qualidade. Má qualidade não garante bons formandos. Maus formandos terão baixa empregabilidade.

Má qualidade também reduz a chance de captação de investimentos por parte das instituições de ensino. Como se percebe, o Brasil está há tempos na mira de fundos de investimento que hoje se dedicam ao universo global do ensino superior. Estratégica, a engenharia é uma área prioritária para estes grupos. E uma avaliação como a proposta pelo Anaseng certamente determinará futuras estratégias de investimentos no setor.

No projeto de implantação do Anaseng, pretende-se abrir espaço para parcerias entre o setor público e privado, isso é, as avaliações seriam feitas por entidades certificadoras contratadas para esta tarefa, pagas pelas próprias faculdades e pelos alunos (como já acontece no caso dos exames da OAB). Esse caminho também segue o exemplo da Índia, onde o serviço de avaliação é gerenciado por instituições privadas sem fins lucrativos, não vinculadas ao ministério da educação e com legitimidade junto aos RHs das empresas.

No Brasil, um sistema assim aceleraria e viabilizaria o processo como um todo. Sim, temos pressa. Ninguém há de negar que a construção de um grande país exige uma forte e bem preparada comunidade de engenheiros. Com as avaliações seriadas iniciadas já em 2018, as perspectivas do ensino da engenharia no Brasil poderão começar a melhorar. Nessa perspectiva, a proposta das avaliações seriadas surge como uma “luz no fim do túnel” da engenharia brasileira. Já é hora!

Aécio Freitas Lira é CEO e Diretor Acadêmico de Engenharia da EduQualis Educação de Qualidade, é Ph.D, ex-Diretor e ex-professor da Escola de Engenharia da UFMG, consultor de Engenharia de Estruturas e professor-visitante da University of Illinois (Urbana-Champaign), dos Estados Unidos