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Artigo publicado no Jornal Estado de Minas, no dia 1º de janeiro de 2016.

O ensino de Engenharia no Brasil está a caminho da UTI. Enquanto no mundo desenvolvido esta venerável profissão inicia uma revolução conceitual e educacional modernizante, no Brasil os dados mostram uma realidade bastante diferente – e preocupante. De acordo com o ENADE 2014, recentemente divulgado, 81% dos cursos de Engenharia brasileiros avaliados apresentam notas menores ou iguais a 3.0, que indicam no geral a má qualidade do ensino, por se tratar do desempenho do aluno. Esses dados confirmam o ENADE 2011, de semelhante resultado (que era de 75%). Ou seja: uma calamidade! Este grave cenário do desempenho dos alunos é “mascarado” pela divulgação “direcionada” para a sociedade, dos resultados do CPC (Conceito Preliminar de Curso) que é “favorável” às instituições de ensino superior, na medida em que incorpora critérios como titulação docente, infra-estrutura da instituição(“prédios bonitos”) e desempenho dos alunos.

Há outro fator que potencializa o desastre: em 2011, cerca de dois terços de todos os cursos de Engenharia no Brasil, por serem “cursos novos”, na sua maioria privados e noturnos, sequer puderam ser avaliados porque não possuíam alunos concluintes. De fato, o número de novas escolas de Engenharia “explodiu”. Em 2001 havia no Brasil perto de 770 cursos de graduação, contra cerca de 3.000 hoje. Em 2014 foram avaliados apenas 1814 cursos, ou seja 60% do total. Em 2011, pela primeira vez na história do ensino superior brasileiro, o número de calouros de Engenharia superou o de Direito. O número de concluintes saiu de 18.000 novos engenheiros por ano (2001) para esperados mais de 80.000 novos profissionais em 2015.

Porém, cursos ruins, professores com pouca experiência profissional, currículos desprovidos de atividades criativas e inovadoras, infraestrutura insuficiente e laboratórios sem investimentos refletem um sistema de ensino operando em circunstâncias muito aquém do ideal, o que acaba gerando engenheiros sem a qualificação demandada por um mercado cada vez mais competitivo e exigente.

Não se pode negar que o crescimento de novos cursos em todas as áreas veio atender a demanda reprimida em termos de quantidade, mas deve-se reconhecer que esse movimento pecou em qualidade e continua pecando. As instituições de ensino ganharam sob o ponto de vista financeiro, mas todos perderam no aspecto acadêmico. Tanto que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) adotaram medidas para limitar o “excesso” de escolas de Direito no Brasil, buscando a melhoria da qualidade dos cursos, em sua maioria recém-criados. E hoje as escolas de medicina começam a ser questionadas entre qualidade e quantidade. Médicos, políticos e técnicos do setor da saúde idealizam ajustes e recomendações.

Diante desse quadro, e com a perspectiva que me permite após meus trinta anos como professor e ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG (94-98), e outros 13 anos como executivo de instituição de ensino privada, faço um alerta.

Urge que os órgãos responsáveis como o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), os Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura (CREAs), a ABENGE (Associação de Ensino de Engenharia) e as melhores escolas de engenharia do Brasil( apenas 4.7 % do total) desenvolvam, em conjunto, programas institucionais que promovam a melhoria do ensino. Há oportunidades em várias áreas. Uma delas, por exemplo, é assimilação e a adoção dos modernos métodos de aprendizado ativo, que se estruturam em torno de novos tipos de sala de aula nas quais professores e alunos, em ambiente colaborativo, possam ensinar e aprender, respectivamente. A criação de um “selo de qualidade” e de certificações serviriam como estímulo para que as instituições mantenedoras, em especial as particulares, investissem em modernização de metodologias e infraestrutura, na melhor qualificação de professores, e num melhor serviço educacional para os alunos, etc.

Já se nota um pequeno movimento nesta direção. Boa parte das melhores escolas de Engenharia do Brasil (entre elas o ITA, o INSPER, a USP, a EE.UFMG ) está investindo em novidades como estas. A inspiração vem dos Estados Unidos, onde o ensino de Engenharia passa por experiências transformadoras que já são referência internacional, destacando-se o Olin College, Illinois/Urbana, Stanford e Purdue, além de projetos inovadores do MIT.

Dentro de um projeto país, os engenheiros tem um papel de grande importância. Por isso, se a melhoria dos nossos cursos de Engenharia não ocorrer rapidamente, a perversa combinação da má qualidade do ensino com um grande volume de formandos provocará um efeito negativo que afetará, decisivamente, a capacidade competitiva e de inovação das empresas brasileiras, e consequentemente, prejudicando o desenvolvimento do Brasil pelas próximas décadas.

Prof. Aécio Freitas Lira, Ph.D. Diretor Acadêmico da EduQualis – Educação de Qualidade. Ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG. Ex-professor visitante da University of Illinois, USA.