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Artigo publicado no Jornal Diário do Comércio, no dia 28 de abril de 2016.

Mais uma calamidade nos envergonha e entristece: o desabamento da ciclovia no Rio de Janeiro, às vésperas dos Jogos Olímpicos 2016, com vítimas fatais. Esse tipo de calamidade tem se tornado frequente demais entre nós! Dentre várias ocorrências lamentáveis, basta lembrar a queda de um viaduto em Belo Horizonte, às vésperas da Copa do Mundo em 2014. Sem falar no maior desastre ambiental brasileiro, a ruptura de uma barragem de rejeitos em Mariana.

O acidente do Rio não afeta apenas a imagem da administração pública daquela cidade e a reputação do país como um todo. Ele coloca na berlinda a própria engenharia brasileira. Afinal, a variedade e a quantidade de lamentáveis e trágicas ocorrências dá ao cidadão o direito de questionar a qualidade do trabalho realizado pelas construtoras e seus engenheiros, em todos os níveis: engenharia, planejamento, organização, escolha de materiais, realização das obras etc. Afinal, por que caem tantas coisas assim no Brasil?

Como engenheiro civil, há décadas dedicado ao ensino e à consultoria em engenharia de estruturas, sinto “na pele” o peso dessa desconfiança sobre minha profissão. As respostas não são fáceis, mas há um inegável paralelo entre as calamidades e a má qualidade nos projetos de engenharia. E um elo entre elas: a má qualidade no ensino de engenharia no país. E o desabamento da ciclovia torna ainda mais urgente a reflexão sobre as causas deste estado de coisas e as possíveis soluções.

Abordei em artigos recentes que o ensino de Engenharia no Brasil está a caminho da UTI. Afirmo isso baseado em números oficiais do Ministério da Educação: 81% dos cursos de Engenharia brasileiros avaliados pelo ENADE apresentaram notas menores ou iguais a 3, pontuação que revela a má qualidade do ensino – que se reflete em insuficiente formação do aluno. Ou seja: quatro em cada cinco escolas de engenharia brasileiras tem notas da média para baixo. Apenas uma em vinte (4,8%) apresentam qualidade e padrão internacional, com notas 4 e 5, entre elas UFMG, UFRJ, USP, IME e ITA.

Esses dados alarmantes podem “camuflar” uma realidade ainda mais cruel, já que o último ENADE avaliou apenas 1.800 (60%) das cerca de 3.000 escolas de engenharia existentes no país. Isso coloca em cheque a grande expansão do ensino de engenharia verificado nos últimos 15 anos. Os números de hoje apontam um crescimento de 300% sobre os 750 cursos existentes em 2001.

Que fique claro: não há desenvolvimento sem a engenharia e o Brasil precisa de mais e mais engenheiros. Mas de qualidade! Mas à luz dos números acima, parece que o acelerado crescimento, incentivado por política de governo, preocupou-se apenas com os indicadores quantitativos. A velocidade de autorização de novos cursos acabou gerando escolas ruins, com professores de pouca experiência profissional, currículos desprovidos de atividades criativas e inovadoras e infraestrutura insuficiente, entre outros problemas. Uma justa pergunta é se esse sistema de ensino, operando em circunstâncias muito aquém das ideais, providenciará engenheiros com a qualificação demandada pela sociedade e por um mercado cada vez mais exigente.

Os jovens engenheiros não podem ser responsabilizados pelos desastres recentes, é evidente. Mas se os desastres de hoje sugerem que a deterioração do ensino de engenharia já vem de algum tempo, as realidades do atual sistema de formação potencializam os problemas que vivenciamos: obras caríssimas, superfaturadas, sem planejamento adequado, mal projetadas, mal realizadas, sob influencia de interesses políticos, “parecem” não seguir as metodologias e o padrão de qualidade da engenharia das décadas anteriores: projetos completos (concepção, projeto básico, projeto executivo), aprovação de memórias de cálculo por engenheiros seniores, fiscalização criteriosa dos órgãos responsáveis, tendo com foco principal a segurança estrutural e a proteção de vidas humanas!

Felizmente, já se notam alguns sinais de ação por parte dos órgãos e conselhos profissionais e de algumas instituições de ensino de qualidade. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) aprovou recentemente (19/04) a Resolução nº 1.073/2016, que regulamenta a atribuição de títulos, atividades, competências e campos de atuação aos profissionais registrados no Sistema CONFEA/CREA. Um primeiro passo.

Outras ações urgentes incluem a criação de “Selos de Qualidade” e certificações para as instituições de ensino superior. No caso das engenharias, advogamos, no médio e longo prazos, a instituição de avaliações seriadas para os cursos, inspiradas na recém-aprovada Avaliação Nacional Seriada dos Estudantes de Medicina (ANASEM), com avaliações, por exemplo, que poderiam ser aplicadas aos alunos de engenharia, do primeiro, terceiro e quinto anos.

* Prof. Aécio Freitas Lira, CEO e Diretor Acadêmico da EduQualis Educação de Qualidade, é Ph.D, ex-Diretor e professor aposentado da Escola de Engenharia da UFMG, Consultor de Engenharia de Estruturas, Educador de Ensino Superior, ex-professor-visitante da University of Illinois (Urbana-Champaign).