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Artigo publicado no Jornal O Tempo, no dia 25 de setembro de 2016.

Na medicina, a expressão “doença silenciosa” indica enfermidades que, sem sinais prévios, se manifestam súbita e devastadoramente.A analogia médica cabe quando se discute o ensino de engenharia no Brasil.Enquanto crescem em escolas e alunos matriculados, os cursos de engenharia caem em qualidade de formação profissional. Diante dos desafios do país, essa situação exige um rápido diagnóstico e urgente tratamento de choque. Caso contrário, será uma “calamidade silenciosa” que causará danos irreparáveis para nossa capacidade de desenvolvimento.

Após um crescimento explosivo, o Brasil possui 956.800 mil alunos de engenharia(2014). E,segundo o último ENADE, 81% desses cursos obtiveram notas 1, 2 e 3 numa escala de 5, enquanto 50% registraram notas 1 e 2, ou seja, foram classificados como ruins ou péssimos pelos critérios do MEC.

Por si só preocupantes,esses dados podem “camuflar” uma realidade mais dramática, já que apenas 1.815 dos 4.589 cursos de engenharia existentes foram avaliados. Ou seja, 60% deles são faculdades novas, sem tradição, nascidas na esteira do FIES e ainda não formaram turma. Quer dizer:temos um dos maiores sistemas de ensino de engenharia do mundo, e provavelmente um dos piores. Nesse contexto, soa“revelador” e irônico o apelo feito recentemente pelo presidente Temer, em reunião do Comitê de Líderes da mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), para que se contrate brasileiros formados“no exterior” (entre eles engenheiros, imagina-se) para que eles tragam“informações tecnológicas para o País”.

A troca de experiências com outros países faz parte de uma educação forte. Mas imaginar que a “importação” de profissionais e cérebros resolverá nossos problemas de competitividade é uma simplificação grosseira.Precisamos de nova visão e novas políticas para ensino brasileiro. E em especial, para os cursos de engenharia.

O Conselho Nacional da Indústria poderia juntar forças com o CREA, o CONFEA, a ABENGEe outras entidades do universo da engenharia brasileira na exigência de um posicionamento do MEC quanto à ações imediatas, como a implantação de “avaliações seriadas” para os estudantes das engenharias, similares ao dos estudantes de medicina.

Entre as instituições de ensino,parece que a preocupação continua sendo quantidade e não qualidade. Anunciada fusão entre os dois maiores grupos do setor criará uma gigante universitária com 1,6 milhão de alunos, já classificada como “a maior do mundo”. Mas o país precisa de uma engenharia forte e não de escolas gigantes.

Precisamos de coragem para questionar e decidir o que fazer. A engenharia é essencial para os setores estratégicos de tecnologia e inovação. Estamos perdendo tempo e espaço nestas áreas, num quadro que se agrava a cada dia, de forma insidiosa, como uma doença insuspeita que, repentinamente, mata o paciente, sem aviso e sem tempo de resposta.

* Prof. Aécio Freitas Lira, CEO e Diretor Acadêmico da EduQualis Educação de Qualidade, é Ph.D, ex-Diretor e ex-professor da Escola de Engenharia da UFMG, consultor de Engenharia de Estruturas e professor-visitante da Universityof Illinois (Urbana-Champaign), dos Estados Unidos.