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Artigo publicado no Jornal Estado de Minas, no dia 17 de fevereiro de 2016.

Em artigo anterior (EM, 1º/01/2016), apontei que o ensino de Engenharia no Brasil vive uma situação de calamidade em termos de qualidade. Pois a situação pode ainda piorar. Se no ensino presencial a qualidade já é ruim, o que esperar da provável proliferação dos cursos de Engenharia na modalidade a distância (EAD)?

Não se discute aqui a inquestionável contribuição e a evolução do EAD no Brasil, que nos últimos anos atendeu e vem atendendo a demanda reprimida de quantidade de vagas disponíveis. Tanto que, atualmente, 25% das matrículas no ensino superior brasileiro já são nesta modalidade e o percentual deve dobrar nos próximos anos. A atratividade do EAD é facilmente compreensível, pois a modalidade oferece grande flexibilidade para os alunos em termos de lugar e/ou tempo disponível para o estudo. Sem esquecer os menores valores das mensalidades: em alguns casos, os cursos a distância são até quatro vezes mais baratos que as aplicadas na modalidade presencial.

O que nos preocupa é que o ensino de Engenharia via EAD aprofunde as distorções de um sistema de ensino que hoje já opera em circunstâncias muito aquém das ideais, formando engenheiros sem a mínima qualificação demandada por um mercado cada vez mais competitivo e exigente.

A baixa qualidade do ensino presencial é epidêmica, conforme comprovam os resultados do ENADE 2014, recentemente divulgados. Por meio deles, vemos que 81% dos cursos de Engenharia aparecem com notas menores ou iguais a 3, o que indica qualidade de mediana para baixo. Mais ainda: 50% dos cursos receberam notas 1 e 2, ou seja, abaixo da crítica. E esses dados podem esconder uma realidade ainda mais dramática, já que dos 3.000 cursos de engenharia em funcionamento hoje no país apenas 1.800 foram avaliados em 2014!

Isso não parece causar desconforto algum ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), pois várias instituições educacionais, grandes e pequenas, que ficaram na parte baixa da tabela da qualidade (notas 1 e 2 no ENADE 2014), vêm recebendo autorização para ofertarem seus cursos de Engenharia na modalidade EAD.

Questionamos: como essa triste realidade melhoraria com a modalidade EAD? Não é fácil conceber um súbito aumento de qualidade no ensino à distância por parte de instituições que em seus cursos presenciais utilizam metodologias de ensino com currículos desprovidos de criatividade, de inovação e cuja infraestrutura (laboratórios, etc.) é fraca ou deficiente. E este é um problema que ficará “escondido” por muito tempo: os cursos de engenharia na modalidade EAD autorizados hoje somente serão avaliados por volta de 2021, quando então terão seus primeiros alunos concluintes! Poderá  ser tarde demais!

Até onde a Engenharia nacional está consciente do quadro descrito acima? O que acham dessa situação o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), os Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura (CREAs), ou a ABENGE (Associação de Ensino de Engenharia)? O que acham disso as melhores escolas de engenharia (4.7 % do total), que certamente sofrerão uma concorrência desconhecida com a provável “explosão” dos cursos EAD? E, principalmente, o que acham os atuais engenheiros e os futuros alunos de Engenharia, que depositam nesta nobre profissão sua reputação e seus planos futuros?

O mundo não está parado e existem exemplos interessantes a estudar. Instituições de excelente qualidade dos EUA ofertam, na graduação das engenharias, um sistema “hibrido” (“blended learning”), no qual se busca o aumento da qualidade e da inovação com a combinação das modalidades presencial e EAD, valorizando o que cada uma oferece de mais eficaz na relação aluno-professor.

Nosso desafio é urgente. Em qualquer plano de desenvolvimento do Brasil, presente ou futuro, os engenheiros têm e terão um papel de grande importância. Se “lavarmos as mãos” diante desta discussão, colocaremos em risco a não apenas a qualidade da Engenharia Brasileira, mas também o sucesso de qualquer projeto de país que venhamos a desenhar.

* Prof. Aécio Freitas Lira, CEO e Diretor Acadêmico da EduQualis Educação de Qualidade, é Ph.D, ex-Diretor e professor aposentado da Escola de Engenharia da UFMG, Consultor de Engenharia de Estruturas e Educador de Ensino Superior, professor-visitante da University of Illinois (Urbana-Champaign).